Cinco dias sem dado novo do ONS: o site aguentou, os meses fechados são revisados em 1–3%, e a vantagem do modelo no dia 1 encolheu para 3%
Entre a tarde de 17/09 e a madrugada de 22/09/2026 o portal de dados abertos do ONS não publicou nenhuma meia-hora nova de restrição. O dado mais recente ficou travado em 16/09 às 23h30 por cinco dias, o atraso da ponta — que costuma oscilar entre 13 e 43 horas — chegou a 111,8 horas, e os dias 17, 18, 19 e 20 chegaram de uma vez só. Nenhum pipeline quebrou: as dez cargas do período rodaram e disseram, todas, a verdade que tinham — “nada novo”. Esta nota registra o que a pausa fez com cada peça do site, aproveita o primeiro mês de cargas guardadas para medir uma coisa que a metodologia só declarava, e olha para um número que vem encolhendo desde o começo do mês.
A pausa, hora a hora
| Carga (BRT) | Dado até | Atraso |
|---|---|---|
| 17/09 02:02 | 15/09 23:30 | 26,5 h |
| 17/09 14:12 | 16/09 23:30 | 14,7 h |
| 18/09 a 21/09 (oito cargas) | 16/09 23:30 | 26 h → 111,8 h |
| 22/09 02:11 | 20/09 23:30 | 26,7 h |
A primeira carga de 17/09 ainda trouxe o dia 15; a segunda, o dia 16. Daí em diante, oito cargas seguidas leram o mesmo arquivo. Na madrugada de 22/09 o portal entregou quatro dias juntos — e o atraso voltou ao normal como se nada tivesse acontecido.
O que cada peça do site fez
O contador extrapolou por baixo. Sem dado novo, a home segue somando a taxa das últimas 24 horas conhecidas: 7.241 MW, a de 16/09. Só que os quatro dias escondidos foram os maiores de setembro — 10.357, 11.241, 13.306 e 13.721 MW de corte médio, uma escalada contínua. Quando o dado chegou, o acumulado do ano pulou de 32,68 para 33,89 milhões de MWh em uma carga: cerca de 0,7 milhão de MWh (~R$ 170 milhões) que o contador não tinha contado. É o episódio de 03/09 ao contrário: lá a estimativa correu na frente da verdade; aqui ficou atrás. O conserto daquele dia (rastejar em vez de congelar) protege a descida; a subida é só um salto — e o salto é honesto, porque a página diz “estimativa” e a metodologia explica a extrapolação.
O /status avisou; o selo de frescor da previsão, não. A página de
status compara o atraso da ponta com a faixa esperada e ficou fora dela
durante toda a pausa — quem olhou, viu. Já a previsão tem um selo que mede
a idade da última rodada do modelo, e a rodada aconteceu duas vezes por
dia como sempre: o selo dizia “fresca” enquanto a página mostrava, em
21/09, a previsão para 17, 18 e 19 de setembro — três dias já passados.
O selo media a coisa errada para este caso. Desde esta nota ele tem duas
idades — a da rodada e a do dado (dado_ate) — e só diz “fresca” quando
as duas estão dentro do esperado; com o dado parado há mais de 48 horas,
/previsao e /status avisam que o ONS não publicou dia novo.
A curva previsto × realizado ganhou um buraco. A curva de /acuracia
só aceita, para cada dia, a previsão de horizonte 1 feita no último
retrato antes de o dia virar realizado. Para 18, 19 e 20/09 esse retrato
nunca existiu — todas as rodadas do período previam 17, 18 e 19 a partir
do dado de 16. Esses três dias não entram na curva, e é certo que não
entrem: seria comparar o realizado com uma previsão de dois ou três dias
à frente vestida de dia 1. O dia 17, único que tinha previsão D+1 de
verdade, entrou com o pior erro do mês: previsto 5.836 MW, realizado
10.357, MAE de 4.521 MW — o modelo não viu a escalada começar, e não
tinha como ver: o dado de 16/09 dizia 7.750 MW e caindo.
Um mês de cargas guardadas: o tamanho da revisão do ONS
Desde 27/08 o pipeline guarda, a cada carga, a soma mensal da série que leu. A limitação que a metodologia declara desde o primeiro dia — “o ONS revisa meses fechados; a série que medimos é a série final” — agora tem número.
Agosto fechou 2,6% acima da primeira leitura. O mês completo apareceu pela primeira vez na carga de 01/09 às 13h50, com 6.110.713 MWh. Oito dias depois estabilizou em 6.267.917 MWh — +157.204 MWh, quase o corte de um dia médio inteiro somado ao mês. 99,8% da revisão chegou até 05/09; depois disso, migalhas.
Os últimos dias do mês são os que mais mudam. A nota de 03/09 verificou a queda de 30/08–01/09 dígito por dígito contra o dado cru do ONS daquele dia. O dado de hoje diz outra coisa:
| Dia | Corte médio em 03/09 (MW) | Corte médio hoje (MW) | Revisão |
|---|---|---|---|
| 30/08 | 10.241 | 10.727 | +4,7% |
| 31/08 | 4.810 | 5.167 | +7,4% |
| 01/09 | 2.079 | 2.728 | +31% |
| 02/09 | 2.519 | 3.152 | +25% |
A conclusão daquela nota continua de pé — a queda foi real, e segue entre as maiores de dois dias do ano — mas foi de 75%, não de 80%. Os dias mais recentes, os que o contador e o modelo mais usam, são justamente os mais provisórios.
E meses fechados há semanas também mudam. Na carga de 05/09 às 01h42, junho subiu de 3.477.739 para 3.511.846 MWh (+1,0%) e julho de 4.997.866 para 5.043.448 MWh (+0,9%) — revisões de meses encerrados havia cinco e nove semanas, chegando as duas no mesmo arquivo. Nada nas publicações do ONS anuncia isso; só uma série de cargas guardadas enxerga.
O que muda com o número: o acumulado do ano na home é uma série viva que absorve as revisões em silêncio (o número sobe um pouco sem que nenhum dia novo tenha chegado), e a curva de acurácia mede o modelo contra o realizado de hoje, não contra o que estava publicado quando ele previu. Com a revisão na casa de 1–3%, nenhum dos dois vira outra coisa — mas o “tamanho da revisão” agora é uma medida do projeto, e passa a ser recalculada a cada mês fechado.
A vantagem no dia 1 encolheu para 3%
O contrato da previsão publica, a cada rodada, o erro do modelo e o erro da régua (repetir o dia anterior) nos mesmos trinta dias. Desde que os dois viajam juntos, a distância entre eles no horizonte 1 só fez cair:
| Rodada | Modelo d1 (MW) | Régua d1 (MW) | Vantagem | d2 | d3 |
|---|---|---|---|---|---|
| 31/08 | 2.540 | 3.366 | 24,5% | 24,7% | 33,0% |
| 05/09 | 2.496 | 3.256 | 23,3% | 25,4% | 37,8% |
| 10/09 | 2.678 | 3.357 | 20,2% | 20,1% | 38,4% |
| 12/09 | 2.796 | 3.259 | 14,2% | 18,4% | 37,1% |
| 17/09 | 2.735 | 3.060 | 10,6% | 22,7% | 35,5% |
| 22/09 | 2.743 | 2.830 | 3,1% | 21,0% | 24,9% |
Dois movimentos, e nenhum deles é o modelo piorando: o erro do modelo no dia 1 mal saiu do lugar (2.540 → 2.743 MW). O que aconteceu foi a régua melhorar. A janela de trinta dias deixou para trás o fim de agosto — a virada de 30/08–01/09, em que repetir o dia anterior custa caro — e setembro tem sido uma escalada mais lisa, exatamente o regime em que repetir ontem funciona. Os quatro dias que chegaram em 22/09 são o caso extremo: 7.750 → 10.357 → 11.241 → 13.306 → 13.721 MW, um degrau por dia. Bastou a janela ganhar esses quatro dias (e perder quatro de agosto) para o erro da régua cair de 3.067 para 2.830 MW.
Nos horizontes 2 e 3 a vantagem se mantém (21% e 25%), porque a régua ancorada dois e três dias atrás sofre em qualquer regime — e é neles que o modelo mais vale.
O que isso quer dizer, sem esticar: 3% é um retrato de uma rodada, medido
sobre trinta dias que incluem a pausa. Se o dia 1 empatar ou perder da
régua, /acuracia é o primeiro lugar onde isso aparece — o compromisso
é esse desde 28/08. E os três caminhos para a v2 listados na nota de 03/09
apontam para o mesmo alvo: features de tendência (a régua está ganhando
porque a série tem direção, e o modelo vê nível, não inclinação) e uma
correção de nível que digira dias, não semanas. Nenhum entra sem vencer a
v1 no walk-forward de 2024–2026.
Próximos passos
- Feito junto com esta nota: o selo de frescor da previsão considera a
idade do dado (
dado_ate), não só a da rodada. - O tamanho da revisão do ONS vira medida recorrente: a cada mês fechado, a diferença entre a primeira leitura completa e a estável, publicada aqui.
- A v2 do modelo ganha prioridade nas features de tendência, com o confronto contra a v1 registrado antes de qualquer troca.