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O corte caiu 80% em dois dias — a queda é real, e é o caso que a próxima versão do modelo precisa aprender

Vinícius Lisboa

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Entre 30/08 e 01/09/2026 o corte médio diário do sistema despencou de 10.241 MW para 2.079 MW — uma queda de ~80% em dois dias, que desacelerou o contador da home na mesma proporção. A primeira pergunta de quem opera um pipeline é sempre a mesma: o mundo mudou, ou o sistema quebrou? Esta nota responde com verificação independente e registra o que a queda ensinou sobre o modelo de previsão.

A queda é real — verificação independente contra o dado cru

Para descartar falha nossa, refizemos a conta fora do pipeline: baixamos os Parquet crus de restrição (eólica e fotovoltaica, agosto e setembro) direto do S3 público do ONS e aplicamos a fórmula da metodologia — referência menos geração, nunca negativa, somada sobre as usinas. O resultado bate dígito por dígito com a série diária publicada em /dados:

Dia Corte médio (MW) — ONS cru Publicado
30/08 10.241 10.241
31/08 4.810 4.810
01/09 2.079 2.079
02/09 2.519 2.519

E o dado não veio incompleto: 01 e 02/09 chegaram com as 48 meias-horas cheias e praticamente o mesmo volume de registros dos dias anteriores (11.280 contra 11.328 — o arquivo de setembro lista uma usina a menos que o de agosto, ruído). Publicação parcial ou perda de dado apareceria como dias com menos meias-horas ou muito menos usinas.

Situando na série do ano: 2.079 MW é o menor corte médio diário desde 13/07 (1.937 MW) — o nível não é inédito; dias assim existiram em maio, junho e julho. O que machuca é a velocidade: é a terceira maior queda de dois dias de 2026, atrás de 21/07 (−12,1 GW) e 03/08 (−9,0 GW). Viradas bruscas não são acidente raro — são uma característica recorrente deste problema.

O que a queda fez com o modelo

O modelo v1 só enxerga defasagens de 24 horas ou mais (o dado do ONS chega com um dia de atraso — não há como ver o intradiário no horizonte D+1). Numa virada de regime ele é, por construção, um perseguidor: corre atrás da descida com um dia de atraso, como a régua. O histórico real de /acuracia mostra isso acontecendo:

Dia Previsto (MW) Realizado (MW) Erro do dia (MAE)
31/08 6.581 4.810 1.824
01/09 4.817 2.079 2.848
02/09 2.773 2.519 1.000

Em 01/09, o pior dia, o modelo previu mais que o dobro do que se realizou. Em 02/09, com a véspera baixa já dentro das defasagens, colou de novo no alvo. O padrão é o mesmo dos saltos de agosto, só que no sentido contrário — e ecoa o que a nota de 31/08 já apontava: a correção de nível, calibrada em 30 dias uniformes, digere mudanças de regime devagar.

A queda também expôs uma fragilidade do produto fora do modelo: o contador da home extrapola o acumulado com a taxa corrente, e quando a taxa despencou a estimativa ficou dezenas de milhares de MWh na frente da verdade — o piso monotônico então segurava o número imóvel. O conserto saiu no mesmo dia (entrada de 03/09 no changelog): o contador agora rasteja numa fração da taxa em vez de congelar, e reancora no dado fresco de meia em meia hora.

O que estamos estudando para a próxima versão

Três caminhos, cada um atacando um pedaço do atraso — e nenhum entra em produção sem antes vencer a v1 no mesmo backtest walk-forward de três anos que a colocou lá:

  1. Correção de nível mais reativa. Hoje o fator realizado/previsto é a média dos últimos 30 dias, com peso igual para o dia de ontem e o de um mês atrás. Ponderação exponencial (ou janela menor) faria o fator acompanhar o patamar novo em dias, não em semanas — é a hipótese levantada em 31/08 para o viés de d2/d3, e a queda de agora é o caso de teste perfeito.
  2. Features de tendência. O modelo vê o nível da véspera, mas não a direção: véspera menos antevéspera, inclinação da última semana. A exploração de sinais de 28/08 já mostrou que a véspera anuncia o tamanho do erro (correlação ~0,75); a derivada dela pode anunciar o sentido.
  3. Incerteza condicional (quantis). Em dia de virada, o honesto não é errar menos — é avisar que a banda está larga. Prever quantis em vez de um número único deixaria a margem p80 abrir sozinha quando os sinais de instabilidade aparecem, em vez de usar a margem média dos últimos 30 dias.

O que não está na mesa: eliminar o atraso de 24 horas. Ele é do dado, não do modelo — enquanto o ONS publicar D−1, toda previsão D+1 verá a virada com um dia de atraso. O objetivo realista é encurtar a digestão de dias para horas de dado novo, e declarar incerteza maior exatamente nos dias em que ela existe.

O que ainda não sabemos

Se a queda é o começo de um regime novo — primavera se aproximando, cortes estruturalmente menores — ou só mais uma oscilação como as de julho e agosto. A resposta muda a urgência do item 1: num regime que troca de patamar com frequência, a correção lenta custa caro todo mês; num regime que só oscila, o custo é episódico.

E se os três caminhos pagam o que prometem: cada um vai ser medido contra a v1 no walk-forward de 2024–2026 antes de qualquer promessa aqui. Quando houver confronto fechado, esta nota ganha a sucessora.

O projeto

Monitoramento de curtailment de energia em tempo real.

Professor

Estudantes